quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Em nome del Pibe

por Marcos Teixeira

Não é de hoje que os argentinos têm fama de dramáticos e prestam uma idolatria acima do normal. Os exemplos estão em várias áreas, como o casal Perón, o cantor Carlos Gardel ou o piloto de Fórmula 1 Juan Manuel Fangio, que ganharam status de deuses quando morreram.

Mas se engana quem pensa que para virar deus na terra de nuestros hermanos é preciso morrer primeiro. Diego Maradona é tão idolatrado na Argentina que tem até uma igreja para que lhe prestem louvor e adoração: a Igreja Maradoniana, ou La Mano, como também é conhecida.

 
A "missa" em louvor a Maradona (divulgação)
A brincadeira surgiu na noite de 30 de outubro de 1998, após uma conversa entre dois amigos, os jornalistas Alejandro Verón e Hernán Améz. A data, não por acaso, é o aniversário do Pibe, apelido dado pelos argentinos ao jogador, e é neste dia que é comemorado o “Natal”.

O calendário “litúrgico”, baseado na Igreja Católica, conta até com uma Páscoa: é o dia 25 de junho. Nesta data, na Copa de 1986, Maradona foi o responsável por talvez a maior atuação individual da história das Copas, quando marcou dois gols antológicos contra a Inglaterra: o primeiro driblando meio time inglês e o segundo, com a mão - ou como o próprio Diego batizou, "con La Mano de Dios". Também tem missa, padre e até casamento.

“O amor dos argentinos pelo Maradona é uma coisa tão maluca que se o ele ganhasse a Copa no ano passado eu acho que eles (os argentinos) iriam à Praça de Maio, em Buenos Aires, para ver sua ascensão ao céu”, atesta o jornalista brasileiro Flávio Prado, que é apaixonado pelo futebol argentino.

Com sede em Rosário, cidade que fica a 300 km de Buenos Aires, a Igreja Maradoniana conta com mais de 100 mil pessoas pelo mundo. Os ex-jogadores Burruchaga e Batista (chamados de apóstolos por estarem com “Ele” no “Milagre de 1986”), além do brasileiro Careca, companheiro do craque no Nápoli, e os meias Ronaldinho Gaúcho e Deco, estão entre os seguidores mais ilustres.

Mas não é só de fanfarronices que vive a instituição. Com a ajuda de patrocinadores, a igreja doa alimentos para o Hospital Infantil de Rosário, que cuida de mais de 600 crianças com câncer. 

Flavio Prato não considera que a igreja seja vista como religião pelos próprios “hermanos”. “Os argentinos têm mania de endeusar. Nós falamos de reis e eles de deuses, mas acho que, no caso, é pura gozação”. Endossando a opinião do colega brasileiro, Hernán Améz fala da rivalidade de Maradona com Pelé. “Pelé é o rei do futebol, não há dúvida. Já Maradona é Deus e isso também não se discute”. Amém.

Acha muita coisa? Calma, que tem mais! Abaixo, os 10 Mandamentos da Igreja Maradoniana e suas versões para o Pai Nosso e a Ave Maria:

OS DEZ MANDAMENTOS DA IGREJA MARADONIANA:
  1. “La pelota no se mancha”, frase de Maradona em referência aos erros que não mancham sua história;
  2. Amar o futebol sobre todas as coisas;
  3. Declarar o amor incondicional por Diego e ao bom futebol;
  4. Defender a camisa argentina e respeitar sua gente;
  5. Difundir os milagres de Maradona em todo o universo;
  6. Honrar os templos onde Maradona atuou com seus mantos sagrados;
  7. Não proclamar Diego em nome de um único clube;
  8. Pregar os princípios da Igreja Maradoniana;
  9. Adicionar “Diego” ao próprio nome, assim como com os filhos;
  10. Ter a mente aberta,

O Pai Nosso da Igreja Maradoniana:
Diego nosso que está na terra,
Santificado seja o teu lado esquerdo,
Venha a nós a tua magia
Torne seus gols recordar
Assim na terra como no céu.
Dê-nos hoje uma alegria neste dia,
E perdoa aqueles jornalistas
Assim como nós perdoamos
A máfia napolitana.
Não nos deixe manchar a bola
E livrai-nos do Havelange.
Diego

Ave Diego (chamado D10s te salve):
Deus te salve, bola.
És cheia de magia,
Diego está convosco.
Bendita és tu entre todas as outras
E bendito é o Diego que não te desrespeita.
Santa redonda, mãe do gol.
Rogai por nós, jogadores
Agora e na hora do nosso encontro ...
Diego

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